Em movimento

Correr por panquecas

Podia ser o nome do mais recente espaço aberto na capital dedicado às Panquecas, um dos meus ódios de estimação.

Não percebo o fascínio que estes discos (às vezes fofos, outras vezes secos) exercem sobre a esmagadora maioria da população que se recusa a comer pão “porque engorda” ou “porque tem glúten” e depois come panquecas encharcadas em açúcar, melaço, frutas e afins.

Porém, não é o meu ódiozinho urbano hipster sobre uma coisa que não é pão nem é bolo que me traz por cá, mas sim uma tradição um tanto ou quanto sui generis sobre a qual li há uns tempos e na qual tropecei em dezembro passado quando passei por Olney em Inglaterra.

Estátua em homenagem à Corrida Anual de Panquecas em Olney

Há uma estátua em Olney (a da imagem acima) na qual estão as figuras de umas senhoras naquilo que parece ser uma corrida com frigideiras em riste. É mesmo verdade. Em Olney, na Terça feira Gorda (o nosso Entrudo) faz-se uma corrida em que as panquecas são o centro das atenções. Não gostando de panquecas, só mesmo uma curiosidade assim para lhe dedicar algum do meu tempo.

As panquecas iniciaram a sua diáspora pela Mesopotânia, fazendo também parte da “mesa” dos romanos. Claro que na altura, o aspeto da coisa não era tão instagramável, e só na época Medieval é que a receita se começou a aproximar daquilo que conhecemos hoje (porém, sem Nutella, sorry!). Avançando no tempo e fazendo uma viagem imaginária até Inglaterra, percebemos que a receita é aprimorada e eis que no século XV uma dona de casa estava em casa a fazer o quê? Panquecas! Nisto, toca o sino para o serviço religioso. A senhora, atarantada, sai de casa a correr de avental e de frigideira na mão em direção à Igreja de Olney. Verdade ou não, a história foi continuamente repetida e ainda hoje se celebra o “feito” com uma Pancake Race nas terças feiras de Carnaval.

Porquê no Carnaval? Por ser a chamada terça Feira Gorda e a nossa última oportunidade para sucumbir ao pecado da gula antes da Páscoa. Tendo a panqueca na sua receita alguns ingredientes simbólicos, ovos (Criação), farinha (Base da vida), sal (Saúde) e leite (Pureza) a ligação passa a fazer sentido.

Esta é uma corrida na qual os homens não podem participar e apenas são elegíveis as mulheres residentes de Olney…otherwise, no Pancake Race for you! O sino toca uma primeira vez e as mulheres devem começar a fazer as suas panquecas. Ao segundo toque é ver o mulherio a sair de casa desalmado a correr com a sua mais que tudo a fritar na frigideira. São 380 metros de corrida, em que ganha a primeira a chegar com a sua panqueca… sã e salva.

Podem ler mais sobre estas fantásticas corridas no livro “Os Mistérios do Abade de Priscos” de Fortunato da Câmara e também em Historic UK.

Imagem via Pinterest

Leila Gato

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