A Gato come

Boi-Cavalo

Sabem aqueles restaurantes nada consensuais e que por gerarem tanta controvérsia te fazem sentir ainda mais vontade de lá ir?

Pois bem, era assim que a vossa Gato se sentia com o Boi-Cavalo. Normalmente tento ir aos lugares sem ter grande conhecimento prévio. Raramente vejo os menus de véspera e exploro o mínimo possível sobre as pessoas que estão na cozinha. Assim tento visitar os espaços com o menor grau de contaminação e bias que é possível nos dias que correm.

Neste caso e tendo em conta o tempo que demorei a visitar o Boi-Cavalo, não consegui evitar spoilers e críticas que vão desde ler opiniões de pessoas a criticar pela qualidade e volume da música que passa no restaurante, ao facto de misturar ingrediente x com ingrediente y. Ora, todos estes elementos soltos fizeram-me finalmente ir ver, provar (e ouvir) o que o Boi-Cavalo comandado por Hugo Brito tinha para me mostrar. Será que me arrependi?

O que comeu a Gato?

Trigamilha, manteiga rainha do pico, pimenta verde e estragão

Broa nunca desilude, então se chega à mesa embalada por uma voz que nos diz “cuidado que está quente” é de saborear até à ultima migalha que a Gato tira do prato com aquela pressão das pontas dos dedos que garante que “no crumb is left behind!”.

Com a broa (ainda a fumegar) vem uma manteiga que dispensa apresentações (a Rainha do Pico), embora aqui com vestido de gala em tons de pimenta, tornando todo o início deste jantar numa verdadeira ode ao amor pelas coisas simples da vida.

Gaspacho de tremoço, alcaparras e agrião

E aqui as coisas começam a ficar estranhas… ou não! Este género de caldo frio de sabor salinizado tem tanto de improvável como criativo (e que engraçado que é ver as caras das mesas alheias a olhar para os seus pares com aquele ar de desafio do “vá, prova tu primeiro!”). Cá na nossa mesa não houve disso, foi provar e zás: “que maravilha”, dito em uníssono!

Primeiro provei o gaspacho mas o punch é dado quando a alcaparra é devidamente abocanhada, deixando todos os seus sucos envolverem-se no interior da nossa boca com a sua própria textura.

Pastel de massa tenra de escabeche de codorniz e pickle de cebola roxa

Perdoem-me pois já não vos consigo precisar se este prato é mesmo assim como o intitulo e também já não consigo confirmar todos os elementos que estão no prato, porque o menu de degustação do Boi-Cavalo está sempre a variar (e bem). Porém, recordo-me perfeitamente da sensação de sentir a massa do pastel sem ponta de gordura, amaciada pelo seu rico interior que me fez mesmo cair na tentação e pedir bis, num tom que deixou o subchef na dúvida se estava a falar a sério ou meramente a elogiar. Infelizmente, este desejo não me foi concedido mas a pessoa tenta não é? E para a próxima vou tentar com mais força!

Folha de videira com tempura e arroz de cabidela de coelho

A mesa ao lado (um casal inglês) quando percebeu que se tratava de um “blood rice” teve como reação uma nega da senhora e um “vou pelo menos tentar” do senhor, com a Gato a pensar para com os seus botões “eu não sou esquisita, se quiser eu posso ficar com os vossos”. Porém, isso apenas aconteceu nos meus sonhos e tive de me contentar com apenas um exemplar do prato da foto acima. Se repararem com atenção vão notar que a folha de videira já vai a meio porque quase me ia esquecendo de fotografar antes de provar.

A folha de videira para mim serviu como o momento crocante do prato que ia entremaendo com as garfadas de arroz de cabidela bem puxado a vinagre. Se é um prato consensual? Não! Mas também só se vive uma vez para comer comida “chata”!

Pampo e coração de boi

E depois da “tormenta”… a suavidade e subtileza. Peixe repleto de sabor cozinhado no ponto. Nem vou escrever mais nada porque as imagens falam por si.

Popover, molejas e muxama e espuma de limao assado

A malta já se estava a sentir muito acomodada com o momento “zen” atrás pelo que nada que o som do Waiting Room dos Fugazi não resolva com a ajuda deste popover!

Novamente a cara das mesas alheias enquanto a Gato se deleitava a dissecar o interior para ver tudo a que era seu por direito. Este foi um dos meus pratos favoritos, não tanto por ter sabores de que gosto mas pela sensação de liberdade que o prato transmite. Não há transgressões como algo negativo, apenas infinitas opções de combinações e nós que nos sentamos ali à mesa temos a sorte de as poder provar. Mais do que técnica, o interessante ali é ver a ousadia que sai da cozinha direita para a mesa.

Nesse dia, faltou um membro do staff e Hugo Brito estava no comando do serviço. Foi ele que nos recebeu e foi servindo ao longo da noite, sempre de forma bem disposta e muito acessível. No entanto, alguns dos pratos vieram diretamente da cozinha com direito à apresentação pelo entusiástico subchef Hugo Garcia, que tinha o cuidado de explicar devidamente a composição dos pratos e preparar-nos para a sua degustação..

Ainda há espaço para sobremesa? Sim! Duas se faz favor!

Toffee de cebola, panqueca de manjericão, gelado de romã

É preciso elaborar?

Esta pré-sobremesa refresca e ajuda-nos a preparar para o que aí vem…

Rabanada de castanha, cheesecake de abóbora e sumo de lima

A rabanada está para a sobremesa assim como a katsu sando está para o prato mais reiventado de Lisboa.

Desta vez é vê-la a chegar-nos estaladiça à mesa com sabores mais outonais como é o caso da castanha e da abóbora.

O creme de cheesecake completa o nível de doçura que se quer atingir e o corte a tanta doçura faz-se pelo sumo de lima que lhe dá o toque final de imprevisibilidade e equilíbrio.

Para finalizar, os cafés, os petit fours e as… “gajas” no fundo do copo de medronho. Um clássico do Boi-Cavalo que faz reviver a juventude de Hugo Brito na cidade.

O veredicto: Se é um restaurante para todos? Eu gostava que se tornasse! Nem que fosse para que pudessem provar um menu que vos tira um pouco o chão e que, a bem da verdade, tem tanto de transgressor como de competente e esse é o estilo do Boi-Cavalo e seu maior trunfo!

PS – A banda sonora é ecléctica – embora em tonalidades maioritariamente rock – e do catano! Procurem-na no Spotify.

Leila Gato

Boi Cavalo Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

Leila Gato

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