A Gato come

Cave 23 – Pena

Se há expressão com a qual saí do Cave 23 foi criatividade “em ponto rebuçado”.

Fui conhecer recentemente o menu de degustação deste restaurante que, curiosamente termina o seu reinado ao mesmo tempo que vos escrevo estas linhas, mas nada temam porque haverão pratos que se repetem ou adaptam à estação que agora brota e que podem ver refletidas na minha opinião.

A palavra “cave” pode remeter-nos para um espaço fechado e sem luz natural, mas esta é no mínimo especial, com paredes de vidro que nos permitem uma vista para o exterior e uma garrafeira de se lhe tirar o chapéu.

O que provou a Gato?

Depois de nos ser apresentado o menu, pedimos a carta de vinhos e optámos pelo Rufia, um vinho que já conhecia e ao qual reconheço o forte carácter do Dão, aqui com a frescura necessária para acompanhar os 9 momentos do menu, e escolha essa, aprovada na hora pelo atencioso Mestre de Sala e Sommelier Thomas Domingues.

Como referi atrás, o menu de desgutação é composto por 9 momentos, 5 deles petiscos, dois pratos principais e duas sobremesas. Cada momento é apresentado através da indicação dos três ingredientes predominantes de cada criação. Curiosos?

Ovo // Ervilha // Chouriço

Este foi para mim um daqueles pratos que não se esquecem e uma forma perfeita de entrar “no espírito” do Cave 23. Através desta curiosa apresentação da filhós somos convidados a provar sabores bem tradicionais como é o caso de uns ovos escalfados com ervilhas e chouriço.

O que saboreamos aqui, fazêmo-lo com recurso às próprias mãos e é o contraste da massa da filhós com o seu recheio cremoso e aromático que faz toda a magia no nosso palato. Talvez tenha sido a minha criação favorita de todo o menu do Chef Henrique Cachola Antunes, de tenra idade, segundo o cartão de cidadão, mas que acumula já no seu curriculum vitae passagens por restaurantes como Kadeau ou o incontornável Gaggan.

Bacalhau // Pimento // Alho negro

Novamente os sabores lusos com uma “roupagem” criativa, vestindo-se de trajes de inspiração asiática como são o caso destes dim sums negros recheados de bacalhau e pimento, um encontro feliz de culturas à mesa como segundo momento deste menu.

Brioche // Porco / Katsuobushi

A carne de porco foi feita a baixa temperatura durante 48 horas, são 48 boas razões para ficar logo estarrecida a saborear.

À carne é adicionado ketchup de gengibre de sabor picante, um pouco picante demais para o meu gosto porque se sobrepôs ao sabor da carne, mas nada que lese a experiência no seu todo. O katsuobushi (uma conserva seca de atum bonito) além de ser um elemento decorativo funciona ainda como intensificador de sabor e textura deste 3º momento.

Viera // Manga // Maçã

A textura fresca e macia da vieira com puré de algas, o gel de manga entre as vieiras, wakami com óleo de sésamo fazem grande parte da magia deste prato ao qual é adicionada já à mesa, a água com maçã verde conferindo-lhe grande frescura.

Pêssego // Algas // Hortelã

O 4º momento é dedicado ao pêssego, aqui na versão grelhada, acompanhado de uma salada de alface do mar, algas e hortelã. Uma combinação fresca e adocicada que termina com notas aromáticas.

Corvina // Couve // Mexilhão

Sigamos para a 5ª parte deste menu, sendo que agora é a vez de um dos primeiros pratos principais: a corvina é depositada no prato ao lado de um falso taco de couve e mexilhão triturado no seu interior. Os sabores que aqui prevalecem são mais quentes e reconfortantes, num doce adeus ao Verão.

Pato // Topinambur // Shimeji

No segundo prato principal, o pato protagoniza duplamente esta criação, no formato mais tradicional e ainda numa redução da prórpia carne acompanhada de cogumelos shimeji. Para marcar o contraste, o topinambur em puré torna-se numa escolha acertada e aplaudida.

Maracujá // Caril // Pipoca

E as surpresas não ficaram por aqui. Como primeira sobremesa, provei esta improvável combinação entre caril, maracujá e pipoca desconstruída. O que vos posso dizer é que a combinação funciona (e de que maneira), além do contraste entre as texturas é a própria relação entre os sabores que traz a maior surpresa do prato. Tornou-se num dos meus favoritos, pela imprevisbilidade inerente.

Tangerina // Tapioca //Coco

E fechamos em grande com este nono momento. Sorvete de tangerina e lima “suportado” por um crumble de amendoim com tapioca e coco. Sabores doces, frescos para regozijo da Gato no final desta refeição.

Como notas finais sobre esta experiência: fiquei muito curiosa com a nova carta que acaba de nascer no Cave 23 pela mente impulsivamente criativa do Chef Henrique Cachola Antunes. As provas estão mais do que dadas com o excelente trabalho que aqui está a fazer e que será, certamente um nome a fixar no panorama nacional.

Resta-me dizer-vos que é bem provável que nos voltemos a ver por aqui, pois este é daqueles lugares que vai diretamente para a lista dos “a regressar asap“.

Leila Gato

Cave 23 Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

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