A Gato come

Rei das Praias – Ferragudo (Algarve)

Primeira advertência: se reservarem mesa, digam especificamente que não querem ficar na mesa 25.

Segunda advertência: Sigam sempre as advertências da Gato.

Posto isto, aviso previamente que as próximas linhas contêm a opinião que menos gostei de escrever aqui no blog.

Fui para conhecer o Rei mas saiu-me um Duque…

O Rei das Praias é um restaurante de Praia com muitos anos de História, conhecido por ter ótimo peixe fresco e uma vista de cortar a respiração sobre a Praia do Caneiros em Ferragudo.

Sabendo que poderia ser difícil conseguir mesa, ligámos a reservar com duas semanas de antecedência um jantar para 4 pessoas.

Chegados ao local, deparamo-nos com um primeiro espaço de bar repleto de turistas e com música ao nível de uma discoteca da moda. Até aqui tudo bem, estamos em julho, o restaurante dispõe de um bar, fica na praia e faz sentido.

Felizmente, quando entrei no restaurante percebi que o som da música não se fazia ouvir. Ufa! Refeita do susto, anunciámo-nos com a referência à reserva, numa sala que já estava para lá de cheia. Ao dizermos o nosso nome percebemos nitidamente o espanto e vimos que o nosso nome estava meio que perdido na folha das reservas, tendo o anfitrião repetido várias vezes para os demais empregados “20:30”, como que a dizer que há uma reserva para as 20:30 que descuraram. Notem que chegamos às 20:33.

Após o choque inicial, meio que a medo lá nos indicaram qual seria a nossa mesa. Pasme-se quando nos vimos numa mesa de canto, sem uma única janela que permitisse a presença de uma brisa (por mais leve que fosse, bastar-nos-ia). Para piorar o cenário (e acreditem vai piorar) esta mesa – a 25 nunca se esqueçam – fica quase encostada às traseiras do motor de refrigeração do peixe que está na entrada do restaurante. Ou seja, nós estamos ali sentados numa espécie de sauna forçada, apesar de termos reservado com muita antecedência.

Tentando tirar o melhor partido da noite começamos a ver o menu e eis quando nos é trazido para a mesa o couvert, uma cesta de pão e um trio de azeitonas, cavala em azeite (que parecia de conserva mas não daquelas que a Gato às vezes elogia) e uma “incrível” pasta de philadelphia e beterraba. Sim, foi assim que nos foi apresentado esta entrada como se se tratasse de um manjar dos deuses à espera de ser degustado.

E foi neste momento que os sinais de alerta da Gato começaram a soar…Com o regresso de uma das pessoas que nos estava a servir à mesa, perguntámos se seria possível mudar-nos para uma mesa que entretanto ficasse livre, a resposta foi pronta e seca: não porque tinham outras reservas. “Compreensível” pensei eu, mas estava uma mesa perto da nossa prestes a vagar (e tinha uma janela mesmo atrás) e perguntámos se não nos podiam mudar para lá, afinal de contas ainda só tínhamos o couvert na mesa (sim, porque o serviço ali não é o mais ágil e diligente do Algarve), voltaram a dizer que não, colocando a mesa apressadamente e chamando os clientes seguintes.

O que me chocou mais no meio disto tudo? Havia reservas sim, mas havia reservas para aquela mesa em particular? Não havendo, porque não ir de encontro ao pedido de 4 clientes que estavam nitidamente insatisfeitos e pedir aos clientes seguintes que aguardassem um pouco se não se quisessem sentar numa mesa que na realidade nem devia de existir dadas as condições. Nestas situações, um serviço eficiente tentaria minorar o incómodo, nem que fosse com a oferta de água ou um pedido de desculpas – dois remédios acessíveis e que não causariam mossa ao Rei mas que não foram aplicados.

Adiante. Depois de escolhermos o vinho, fomos convidados a ver a montra para escolher o peixe que queríamos. Qual o nosso espanto quando nos deparamos com uma montra bastante despojada de peixe e com muito poucas opções com tamanho apropriado para 4 pessoas. Além disso ouvimos um “hoje já esteve mais cheio”, tudo bem, eram 20h30 e já havia pouco peixe mas não é algo muito simpático de se ouvir quando se vai a um restaurante famoso pelo seu peixe fresco na grelha numa noite de sábado de verão em pleno Algarve.

Confesso que não reservámos o Rei das Praias para comer uma Dourada ou um Robalo – sem qualquer desprimor, que Dourada e Robalo são peixes que a Gato gosta – e foi preciso insistir (bastante) para nos ser apresentada outra alternativa. A ferros, lá foi apresentada a opção de arranjar meio Cherne (cerca de 1,6Kg) para a nossa mesa.

Pedimos também uma dose de sardinhas como entrada dado que este ano mal tivemos oportunidade de degustar este também fiel amigo. Éramos 4, a dose trazia 6 sardinhas ridiculamente pequenas – embora de qualidade. Mais uma vez, compreendo que este ano por algum motivo as sardinhas sejam mais pequenas, mas o prato tem preço fixo (EUR 16,00) e não ao peso, logo podiam perfeitamente ter colocado duas sardinhas adicionais dado se tratarem de 4 pessoas e para equilibrar a insatisfação bem visível pelas (falta de) condições da mesa atribuída.

Lá continuámos nós a destilar mas ainda assim motivados a aproveitar o nosso último jantar no Reino dos Algarves. Puxei do meu leque enquanto dava por mim a ver as restantes mesas animadas de turistas felizes e frescos por estarem juntos de janelas e da esplanada.

Antes de chegar o Cherne, voltaram e perguntaram-nos como queríamos que o peixe fosse servido, se à portuguesa ou à estrangeira, e pronto neste momento morri de vergonha alheia. Normalmente alinho em serviço animado e descontraído mas aqui senti mesmo que havia muita falta de tato e sentido no que me estavam a perguntar. Dissemos meio que a brincar que queríamos à portuguesa, claro mas não deixamos de perguntar qual era a diferença. A diferença é simples: se queríamos o peixe arranjado ou se vinha o bicho para o centro da mesa para pormos mãos à obra (o que podia ser escolhido na versão à portuguesa ou à estrangeira) sendo que na versão à estrangeira, traziam-nos umas batatas fritas e o ketchup. Talvez o humor se torne impercetível quando a temperatura corporal chega a valores febris.

Falamos de um restaurante com classe, bons talheres, serviço e copos. Mas eis que chegado o peixe, colocaram também na mesa uma salada servida uma taça (saída da linha mais barata de todas do IKEA ou da KASA – nada contra, não fosse destoar totalmente da restante louça) e batatas…assadas. Ficámos incrédulos a olhar para elas e chamámos para perguntar “Batatas assadas com peixe grelhado?”, ao que nos responderam “não são batatas assadas, são batatas salteadas” (e uma queimada referiu um dos clientes à mesa). Nisto pegam no prato com as batatas e dizem “mas se queriam umas diferentes podiam ter dito” – resta saber quando.

Sim, mantivemo-nos incrédulos e com muita vontade de rir para não chorar. E com sede, tendo sido um desafio constante sermos servidos de vinho ou água, já que o frappé não estava acessível e a atenção dada à nossa mesa não foi das maiores, como estão a perceber.

Obviamente que jantámos o nosso peixe, pedimos uma sobremesa – tarte de alfarroba com figo, de boa qualidade, acompanhada por uma bola de gelado de nata baratucho – pagámos o nosso (caríssimo) jantar e pusemo-nos na alheta para apanhar ar.

Antes disso ainda precisei de ir à casa de banho, também não aconselho senhoras, a arte de agachar pode ser necessária pelo que vão praticando no ginásio caso estejam a pensar em visitar este restaurante.

O que posso concluir? Tivesse eu lá ido na época baixa para almoçar e provavelmente teria tido uma belíssima refeição. Infelizmente, aliada à falta de profissionalismo gritante (desde a gestão da reserva à gestão do serviço ao cliente), este jantar teve o condão de me sentir genuinamente convencida que aquele estereotipo de que em certos restaurantes algarvios ser português é uma desvantagem não é um estereotipo mas sim um facto.

Engraçado que comecei a semana de férias a jantar num sítio da mesma gama, conceito e filosofia que o Rei das Praias – de que falarei brevemente no Blog – e que conseguiu acertar em todos os pontos aqui apontados negativamente e onde não chorei os mais de EUR 60,00 por pessoa. Pelo contrário, celebrei-os. O Rei das Praias – infelizmente e por motivos que podem ter sido apenas uma conjugação astral infeliz – fez-me chorar o dinheiro, estragou uma noite que tinha tudo para ser ótima e marcou indelevelmente a nossa despedida destas mini-férias.

Saiu-nos um duque.

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Leila Gato

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