A Gato come

O Ciclo – Lagoa (Algarve)

Uma semana de férias pelo Reino dos Algarves abriu-me inúmeras hipóteses para conhecer novos pitéus e desbravar novos restaurantes nunca dantes visitados. Ora, pois bem, um dos que levava já debaixo de olho obrigou-me a um ligeiro desvio: falo do Restaurante O Ciclo, em Lagoa. Sem querer dar spoilers, posso dizer-vos que, como não gostei nada da experiência (ler com ironia), mal acabei de jantar pedi a conta e o favor de reservar nova mesa para dois no final da mesma semana.

Vamos então ao Ciclo. Embora visitado por vários turistas, nota-se a presença de muitos locais e habitués que aqui encontram uma ótima opção de comida tradicional, a preços justos, pautada por um serviço muito educado, célere e prestável. Restaurante modesto na decoração mas tendo alguns apontamentos curiosos, como a parede dedicada à História de Lagoa e (pasme-se) do relato detalhado do ano em que nevou na região, e o bom gosto de ter uma bem dimensionada garrafeira a piscar-nos o olho, independentemente da mesa em que escolhamos nos sentar.

O que bebeu a Gato?

De todos os restaurantes de qualidade que visitei desde o início do meu site – sim, porque a Gato também tem desilusões, enganos e passos em falso nesta arte de comer – o Ciclo apresenta a melhor relação de preço da garrafeira, com margens na ordem dos 50% (muito abaixo do normal em Lisboa).

Na primeira volta, bebemos um tinto Herdade dos Grous 2017, um vinho com uma boa relação qualidade-preço, familiar à maioria dos comensais dada a sua presença regular dos restaurantes.

Na segunda volta, optámos por um excelente Branco da Herdade Cortes de Cima – Cortes de Cima, Dois Terroirs. Foi o nosso primeiro encontro e foi jovial, animado e leve. Cheira-me que foi o primeiro de muitos, Cortes de Cima!

O que provou a Gato?

O xerém

A minha primeira visita teve lugar numa segunda-feira – dia fraco para comer peixe fresco, como é óbvio – pelo que tiveram a amabilidade de nos perguntar se o xerém poderia ser de berbigão e lingueirão atenta a falta de produto e para assegurar que o prato se apresentava “rico” e de qualidade. Resposta da Gato: Por quem sois? A Gato ecoou um prontíssimo “não há qualquer problema”, salivando já na expetativa de aviar tal combinação.

Xerém é um prato que tem entrado cada vez mais na minha “dieta” gastronómica, sendo que muitos restaurantes lisboetas começam a integrá-lo nas suas ementas. Tive a sorte de provar neste último ano alguns xeréns de grande qualidade “laborados” por mãos de Chefs em Lisboa como são o caso de José Lopes (Pão à mesa) – que trabalhou no Algarve por vários anos – que trabalhou no Algarve por vários anos -, Filipe Rodrigues (Taberna do Mar) – algarvio de gema – e Mateus Pessoa (Faz Frio), os quais me aguçaram a curiosidade para provar este prato típico do sul no lugar de onde é originário.

O que me chegou à mesa foi um xerém servido em taça de barro de aspeto simples, cremoso e delicado e que invadiu a minha boca de sabor a mar. Consistência, textura e sabor irrepreensíveis.

Com as expetativas em alta, seguiu-se…

A Raia de Caldo

Além da raia alhada – um prato que adoro – encontrei no menu uma “Raia de Caldo” que me suscitou curiosidade, e havendo curiosidade há que a matar!

Depois de ter terminado o xerém e de já ter “mandado abaixo” toda a cesta do couvert que, além de pão, tinha um queijo fresco com doce de abóbora, foi-me transmitida uma mensagem críptica mas precisa: “vamos trazer o tachinho para a mesa”.

Quando ouvi “tachinho”, pensei eu num tacho modesto, moderado, quiçá até contido depois da pratada gigante de xerém – já vos disse que o xerém era maravilhoso? – mas o tachinho revelou-se num tacho gigante com um caldo riquíssimo.

A Raia de Caldo difere da raia alhada pelos seus ingredientes base e pela preparação, sendo composto por cebola, batatas e brócolos que cozem no caldo, quente, translúcido e soberbo. Da simplicidade nasce magia com este caldo que envolve um peixe híbrido, que parece invertebrado mas tem muita cartilagem para chupar e deitar fora, de cor branca e de textura suave e delicada.

Rendida e a abarrotar, a Gato não quis sequer consultar a lista de sobremesas nesta primeira volta embora, em abono da verdade, tivesse catripiscado a tarte de alfarroba que passou para uma mesa “concorrente”. Biltres com barrigas elásticas, só pode!

Assim terminou a primeira refeição, com dois cafés bem tirados e uma conta muito modesta para a qualidade evidenciada.

E na segunda volta, Gato?

Na segunda volta, que decorreu numa sexta-feira, quisemos provar pratos diferentes e deparámo-nos com uma montra de peixe muito apelativa.

Desta vez, o couvert trazia tomates com ovos, um petisco muito típico a sul do país e que cada restaurante serve da sua forma, ora mais atomatado, ora com mais ovos, ora com mais tomate, ora com este mais refogado ou mais ao natural. Aqui provámos na versão mais “atomatada” e “refogada” que, não sendo tanto ao meu gosto (pois prefiro com mais ovos e um sabor menos intenso a tomate), não deixou os seus créditos por mãos alheias e foi integralmente devorado.

As ovas grelhadas

Logo depois chegaram as ovas grelhadas, muito bem acompanhadas por umas suaves migas de batata doce.

A meu ver, o truque para umas ovas bem conseguidas é simplesmente não estragar a matéria-prima de qualidade e grelhá-las apenas o suficiente para que o seu sabor não se perca na grelha. Ora, este mandamento foi integralmente respeitado pelo que posso descrever as ovas que me vieram parar à mesa numa só palavra: sublimes.

Depois de divididas as ovas, chegaram os…

Chocos com tinta “fritos” em azeite e alho

Se há coisa que a Gato adora é ficar com os dentes cheinhos de tinta de um Choco fresco e saboroso. Estes chocos apresentavam-se corpulentos ou, em português corrente, “muito grandes”, mas extremamente macios e suculentos, arrebatando-nos desde a primeira garfada.

O que vos posso dizer é que terminámos o jantar e a semana da melhor forma e temos já a intenção de lá voltar sempre que regressarmos ao Algarve. Acho que produzir uma afirmação tão perentória sobre um restaurante localizado numa pequena localidade no Algarve e onde há tanta concorrência, já implica dizer muito!

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Leila Gato

2 thoughts on “O Ciclo – Lagoa (Algarve)”

  1. arrisquem beber vinho local… um Remexido da Quinta dos Vales em vez dos Grous e um Cabrita Branco no dia de beber branco ficavam bem melhores

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