A Gato come

Big Fish Poke – Cais do Sodré

A primeira coisa que me vem à cabeça quando digo Big Fish é isto. Uma das obras primas de Tim Burton que é um pedaço de céu (para mim). Curiosamente “poke” em havaiano quer dizer “pedaço” por isso estamos conversados sobre o tema.

Avançando. O meu entusiasmo por poke bowls nunca ultrapassou a linha do “médio” no firmamento porque a verdade é que nunca tinha provado uma que ficasse na memória digestiva. E porquê? Creio que tudo se prende com algumas variáveis que no Big Fish Poke não são descuradas.

Uma poke é um género de taça que serve sushi desconstruído, uma tradição havaiana com forte influência japonesa, e que, pela sua natureza, facilmente conquista muitos fãs em terras lusas.

Mas em que é que estas pokes se destacaram das demais?

Simples: qualidade do produto (peixe fresco) e dos ingredientes tradicionais japoneses que vão coroar o arroz que passa por todos os processos certos antes de ser “cama” da poke. Explicou-nos Luis Gaspar, o Chef executivo deste reataurante (e também do Sala de Corte, ambos do Grupo Multifood) que conversou durante toda a noite e nos explicou empolgadamente a filosofia do restaurante e da sua carta enquanto ia aferindo a nossa experiência e as sensações oriundas de todas as provas.

Izakaya há muitos!

Mas não é costume ter vista privilegiada para a cabeça de um atum de 42 quilos que vais comer dentro de segundos. No Big Fish Poke, sentamo-nos ao balcão enquanto assistimos à ágil coreografia dos Chefs que nos preparam o repasto.

Aqui, se as pokes são Rainhas, o sake é Rei!

Ao leme do Bar contámos com Fernão Gonçalves, o criador da Carta do Bar e que definiu o pairing de todo o menu. Teve o mérito de nos abrir os horizontes para a versatilidade desta bebida, injustamente marginalizada em muitos restaurantes japoneses e que, quando escolhida de acordo com o polimento do arroz, nos abre o palato para os sabores e aromas da cultura asiática.

Esmiucemos a Carta!

Snacks de atum, salmão e corvina e o cocktail Mai Tai Amendoim e Abacaxi

Estes “snacks” são, nada mais nada menos, que aparas de peixe desidratado, parte da zona junto à espinha, que servem de leito para peixe fresco servido sem qualquer tipo de artifício. 

Neste fase, provámos ainda o Mai Tai de amendoim e abacaxi. Doce e irreverente – se é que posso atribuir este tipo de adjetivos a uma bebida – talvez pelo sabor do amendoim que ia surgindo na língua aqui e ali!


As entradas: Tártaro de atum, um tuna musubi e um Sake Sparkling Mio A

Caríssimos, se a matéria-prima é superlativa, o resto só tem de acompanhar. Quanto ao tártaro nada a apontar, fresco (não confundir com gelado), sedoso e texturado.

Neste caso, o atum é servido com ovo de codorniz que quando provado em conjunto com o peixe fresco e a fina tosta de pão, fala por si mesmo e convence qualquer audiência do porquê destes alimentos ligarem tão bem.

De seguida, musubi! Descobri ser um estilo de “petisco” comum no japão que tem como princípio ter a percentagem certa de arroz bem cozinhado para a dose certa de peixe, sendo que o atum é colocado no topo da “barra” (à falta de nome técnico) de arroz.

Este Sake Sparkling Mio é daqueles “fáceis de gostar”: agradável e até um pouco frutado com a dose certa de “sparkle”, numa combinação harmoniosa que permitiu que todas as notas dos sabores destes dois pratos tivessem total destaque na nossa boca feita palco.

Deixem passar o primeiro poke da noite: o Poke Big Fish

Feito com atum yellowfin, arroz yumenishiki, kyüri, cebola doce, cebolo, alga wakame, Haiwaan sauce e cebola crocante

Deu para perceber a diferença logo na primeira entrada direta do arroz e do peixe na boca. Os temperos no ponto servem para evidenciar os sabores dos alimentos e dos diferentes ingredientes, como um perfumista em busca da fragrância perfeita. Tal como os perfumes que mudam de corpo para corpo, é assim que imagino o tempero das pokes, variando de língua para língua com toda a subjetividade inerente controlada pela mão experiente do Chef.

Segundo poke da noite: Sweet Pepper Sardine

Esta poke foi criada a propósito da semana dos Santos populares e foi apresentado à Zomato depois do lançamento exclusivo pela Time Out.

A Sweet pepper sardine , além da sardinha, leva ainda pimentos assados (como o nome deixava antever), tomate cherry, cereja, coentros e broa de milho crocante.

Armou-se o arraial na boca da Gato, como uma noite de verão nos Santos mas dentro de um espaço muito mais harmonioso e bem decorado, sem o cheiro a carvão! Um verdadeiro assombro: os filetes de sardinha ligados na perfeição com o pimento assado e contrastando com a acidez própria do tomate em disputa com o sabor adocicado da cereja.

Pode parecer uma lista desconexa à primeira vista mas quando os sabores se vão envolvendo no interior da nossa boca, a conversa ganha outra vida – muita sinapses a acontecer durante esta prova que revela um encontro feliz de sabores lusos e japoneses.

O Big Fish Poke fez nascer uma curiosidade genuína por este prato tradicional e que me levou a perspetivar novas dimensões na cozinha havaiana, até agora um mistério para mim.

Srguindo para algo doce que é como fiz, a pré-sobremesa: Malassada com creme de batata doce

Mea culpa mas eu não conhecia as malassadas da Madeira. Provei esta versão com recheio de batata doce. O que me veio parar dentro da boca foi uma massa frita, leve, muito leve com um recheio doce e que me proporcionou uma experiência como poucas que tenho tido no que a sobremesas diz respeito.

Nesta recriação da habilidosa Lara Figueiredo, não temos recheio mas sim uma pequena porção do creme que vamos “molhando” como se estivéssemos a comer um croquete com mostarda que nos permite dosear a quantidade de creme. Claro que o vamos comer todo (por quem me tomam?), só não o fazemos é todo de uma só vez.

Partimos de seguida para o colosso mas antes de avançar uma breve referência a toda a louça usada neste restautrante que é feita em exclusivo pelas mãos dos ceramistas do Studio Neves que ganha cada vez mais fãs na restauração de Lisboa. Percebe-se bem o motivo. A peça usada para a  sobremesa seguinte fez-me lembrar as enigmáticas pedras parideiras que nascem na Serra da Freita.

Chocolate Kilauea

Ou seja, chocolate 70% Equador, wasabi, iogurte e sal negro do Hawaii

Antes de qualqer descrição: a foto!

É a vez de entrar em palco a segunda sobremesa da noite, uma simbiose perfeita e uma construção ardilosa de texturas e sabores doces e amargos do chocolate e que encontram no sal preto do Hawaii o contraste perfeito para bocas pouco acostumadas ao nível de sal vulcânico.

Prosseguindo, o pairing da sobremesa foi um chá sasuke, chá preto de cacau e cardamomo. Incrível como se conseguem perceber todas as notas quando as bebidas são servidas à temperatura certa.

Ganache, um mimo final da “doceira de serviço” que encontra neste lugar o espaço perfeito para dar asas às suas experiências e criatividade.

A equipa do Big fish poke!

Feliz este encontro de culturas que deu aso a um espaço diferenciador no mercado. Numa cidada em que pululam conceitos de restauração diariamente, impera quem traz a novidade seguindo uma “corrente tendência” e quem conseguir ajustar os preços à oferta. Espero voltar ao Big Fish Poke muito em breve para comprovar que o que aqui se faz tem tudo para dar certo! Até porque tão cedo não me arrisco a comer pokes que não venham daqui

Big Fish Poke Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

Leila Gato

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