A Gato come

Izakaya Tokkuri – Pop up – Bairro Alto

O que fazem dois chefes de origens tão diferentes numa tasca japonesa, encurralados em pleno Bairro Alto entre turistas perdidos à procura de casas de fado e restaurantes sem história?

Fazem magia, diz a Gato, e já vos vou explicar porquê.

Aquilo que começou como “uma brincadeira entre mim e o Chef Adão” nas palavras do Chef Lucas Azevedo vê agora a sua última semana de vida nas ruas movimentadas do Bairro Alto, mais concretamente no n.º 28 da Travessa dos Fiéis de Deus. Amén.

Este é um restaurante que vem promover um encontro  das gastronomias portuguesa e japonesa, num feliz dueto entre um Flaviense que domina a cozinha portuguesa (tendo passado por restaurantes de referência como o D.O.C., o Ocean, o Vila Joya, o 100 maneiras e mais recentemente abraçou o projeto da Quinta do Arneiro) e um Brasileiro que brilhou ao leme do Bonsai (um clássico japonês de Lisboa). Tudo isto numa ambiente de izakaya, petiscando-se ao balcão enquanto os Chefs Vitor Adão e Lucas Azevedo criam aquilo que estamos prestes a comer com todo o cuidado e alma que a gastronomia merece e sem qualquer segredo escondido.

O único segredo que tenho mesmo de gritar aos 7 ventos é que o Izakaya Tokkuri Pop-Up está a chegar ao fim: só têm uma semana para não perder uma das melhores experiências gastronómicas de Lisboa.

E o que comeu a Gato, perguntam vocês:

Comecei pela Lula que é como quem diz lula com kimchi e trigo sarraceno

Normalmente deixa-se o melhor para o fim mas eu vou inverter a coisa toda e vou começar pelo primeiro prato que provei e possivelmente um dos meus preferidos. Pela aparente simplicidade, pelo sabor vívido e fresco.

Passemos à arouquesa com pimentão de pimentão e pão (de leite)

Gula: metem-nos à frente umas katsu sando com arouquesa levemente passada e uma mostarda de wasabi que me fez salivar quase tanto como aquele pão com porco do Pigmeu. Sim, se mete a pão a Gato vinga-se! 

A companhia da Gato disse ao Chef Lucas Azevedo que se um dia estiver na death row, esta seria um forte concorrente a última refeição (só para verem o dramatismo que a Katso Sando provocou…).

Vem-nos para a nossa frente umas katsu sando com aroquesa levemente passada e uma mostarda de wasabi que me fez salivar quanse tanto como aquele pão com porco do Pigmeu. Sim, se mete a pão a Gato vinga-se!

Vamos ao porco com amêijoas e espinafres

Carne de alta qualidade, avermelhada, plena de sabor. Se há uns tempos dissessem que a carne de porco podia ser servida assim, alguém saltava logo da cadeira porque o porco não podia mostrar nenhuma mancha rosa que fosse. Felizmente, o mundo evolui e hoje comemos melhor sem matar o porco (duas vezes). Criação feliz em todos os sentidos, nas amêijoas escondidas por debaixo dos espinafres, frescas e transbordantes de aroma a mar e a bottarga a equilibrar o prato e a dar-lhe aquele sabor característico e elevado em contraste.

Uma couve com salsa e pão do outro mundo

Há um prato que apresenta algumas parecenças no menu do Prado e o motivo é simples, a simbiose entre estes ingredientes é do caraças!

Sem comparações mas como reminiscências…quem nos dera que o Prado e o Izakaya Tokkuri se mantivessem a funcionar em paralelo por muitos anos.

E a cavala com pimentos e trigo sarraceno rostado, hein?

Está lá tudo, a supremacia da cavala, peixe complexo de sabor e textura, os pimentos no tom certo com o crocante de trigo sarraceno para nos deleitar. Um forte concorrente a prato mais conseguido da noite.

Vá-se lá saber o porquê da cavala já ter sido peixe “menor” na mesa dos portugueses…

Afinal a Gato de pudim!

Este é de eucalipto e é só incrível. Nota-se muito que gostei? Falamos de um pudim japonês, cuja textura assemelha-se mais a um leite creme mas sem ser (estas descrições equívocas funcionam apenas para vos fazer levantar da cadeira e correrem para o Bairro Alto).

O twist é que o mesmo é servido com kombucha caseira de beterraba com gengibre feita in-house. Um corte perfeito na doçura e frescura da sobremesa. Saí de lá leve, leve.

E a Gato agora gosta de dois pudins, este sobre o qual vos acabei de falar e este, pois claro.

A carta não é extensa, mas o suficiente para nos ter deixado descobrir este Viventino Sauvignon Blanc 2018, suave no palato e que foi abrindo com o passar do tempo depois de aberto.

Se é uma pena que um sítio deste calibre feche? É sim! Mas neste caso é sinal de que estão a borbulhar projetos muitos felizes destes dois brilhantes Chefs que assim terão toda a disponibilidade para se entregarem de corpo e alma. Nós iremos agradecer, certamente. Ámen.

Izakaya Tokkuri Pop-Up Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

Leila Gato

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *