A Gato come

Faz Frio – Príncipe Real

Mea culpa: Eu nunca tinha ido ao Faz Frio.

Mea maxima culpa: Eu não sabia que o Faz Frio era um restaurante centenário que ia fechar e foi depois renovado para voltar a abrir portas mantendo o estilo, alguns apontamentos decorativos e uma carta muito tradicionais.

No Faz Frio não se fazem marcações. É chegar e rezar para que os que chegaram antes de nós sejam rápidos na arte comensal.

Os outros, porque a Gato não sabe comer depressa.

Chegada ao Faz Frio por volta das oito da noite de uma sexta-feira, a espera por uma mesa não foi uma surpresa, mas o convite para aguardar ao balcão enquanto admirávamos o lindíssimo candeeiro de cachos de uvas e o marinheiro feito pelas mãos de Mário Cesariny tornou-se no pretexto perfeito para pedir uma garrafa de tinto para iniciar o repasto.

Aberta a garrafa de M.O.B e admirado o ambiente descontraído e populado, chegou-nos à mesa um prato com dois belos e singelos pastéis de massa tenra.

Ele há coisa mais bonita que um pastel de massa tenra que parece saído do atelier de um ceramista iluminado pela luz divina de Nossa Senhora? Ora apreciem lá a foto que se segue:

São dois exemplares que souberam pela vida, ainda para mais porque comer salgados ao balcão ganha sempre um gosto especial. Estes vinham acabadinhos de fazer, de massa ligeira e propositadamente endurecida e estaladiça, que ao serem trucidados no interior da boca soltaram o recheio rico e húmido.

Pouco tempo depois, a divindade que abençoou os pastéis (e a garrafa de M.O.B. que já ia quase a meio) veio ao nosso auxílio e fomos gentilmente conduzidos até à nossa pequena mesa.

Simpatia e humor são qualidades de um serviço que a Gato valoriza e que por aqui são praticadas sem parcimónia desde o momento em que nos é apresentado o couvert!

Comamos o couvert

Nunca se esqueçam da máxima da Gato, o couvert é um potencial indicador do nível do resto da noite por isso nunca o mandem para trás com aquele arzinho de quem “eu nem tenho muita fome, dispenso as entradas”.

Chega-nos uma cestinha de pão, um queijo amanteigado, azeitonas marinadas e uma manteiga.

Fomos logo informados de que o pão era feito ali mesmo pelo que se impôs a questão:

“Então este menino é artesanal feito com massa mãe?”

A resposta não se fez por tardar: “nada disso amigos, aqui é pão da velha guarda e da retaguarda.

E sabem que mais? Estava tão do caneco que não me coibi de pedir mais uma cestinha. A manteiga, o queijo e as azeitonas foram igualmente consumidas sem apelo nem agravo, culminando num sorriso largo próprio de quem estava a entrar em modo de extrema felicidade gastronómica

Terminado o couvert, tive ali um momento de impasse daqueles difíceis de resolver: carne ou peixe? Embora a feijoada de lebre tenha estado quase até ao fim no horizonte desta ávida comensal, acabou por ser o…

Cachaço de porco preto com xerém de amêijoas que levou a melhor

O que o Faz Frio faz e bem é manter uma carta com pratos e produtos do mais nacional que existe, dando-lhes uma apresentação própria e atualizada – sem altivez modernista – daqueles pratos da casa da mãe e da avó tão dignos pela sua simplicidade como pelas memórias que emanam.

Foi o que senti quando provei este cachaço: uma carne tenra e sedosa pousada sobre o xerém, uma papa de milho de textura irrepreensível à qual foi conferido todo o sabor a mar pelas amêijoas.

Ensopado de borrego com hortelã

Ainda provei o ensopado que quase, quase me deixou de lágrima ao canto do olho por não ter optado por ele. Bonito, sedoso, com o molho de hortelã no seu topo que o acariciava com a sua frescura. Digno de nota!


Mousse de chocolate (70%), abóbora, laranja e amêndoa

Olhem só vos digo assim…que coisa boa. Não sei se é a melhor mousse de chocolate que já comi, porque a do Cacué é boa nas horas, mas esta, talvez devido à envolvência da doçura da abóbora e da laranja, elevam-na a um patamar bastante alto. Consistência irrepreensível, sabor contrastante a amargo e doce, sempre no equilíbrio certo. Estamos perante uma daquelas sobremesas que remete para o passado mas que deixa evidente a mestria da cozinha deste Faz Frio.

A cozinha consistente e plena de sabor do Chef Mateus Freire entronca num serviço irrepreensível liderado por Jorge Marques, responsável pela nova vida do Faz Frio, vida essa que, a julgar pelo que a Gato vivenciou, tem todas as condições para se perpetuar e eternizar no panorama gastronómico lisboeta.

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