A Gato come

Cacué – Saldanha

Se o Homem que Comia Tudo lhe atribui um cometa como a “Melhor refeição do ano abaixo de 15€”, cabe à Gato  ir constatar com as próprias papilas gustativas se assim o é.

Desde o momento em que os nossos pés pisam o chão do Cacué, sentimos que a simpatia e a atenção do serviço são dois elementos-chave que aqui reinam. Aquela que anteriormente foi uma pequena tasca da rua Tomás Ribeiro (Saldanha/Picoas) é agora um pequeno restaurante cujas criações são levadas a cabo pelo Chef José Saudade e Silva

Um pão, uma manteiga com coentros e um queijo amanteigado para abrir o apetite

Cada vez mais acho que a avaliação de uma restaurante deve começar pelo couvert. Aquela parte da refeição, tantas vezes descurada da experiência, e que repetidamente “mandamos para trás”. Acreditem que esta atitude de descrédito se pode revelar num tamanho sacrilégio dada a oportunidade desperdiçada de provar pequenos tesouros, como foi o caso deste pequeno queijo de aspeto tosco e sabor forte.

Também bebemos vinho…

Preços francos e uma garrafeira bem conseguida levaram-me a optar por um tinto Beyra 2016 da região da Beira Interior cujo paladar subtil e aroma (que percebi como frutado a bagas e especiarias), se revelou num agradável pairing para toda a refeição.

Para começar queremos pastel de língua e um pastel de massa tenra

“Infelizmente hoje não temos pastel de língua”, aquela frase que ninguém gosta de ouvir e que dilacerou parte do coração. Prosseguindo. À falta de língua de vaca, mandámos vir um croquete e um pastel de massa tenra, este último recomendado mais que uma vez por pessoas que já visitaram o Cacué.

Ambos delicadamente feitos, acompanhados por uma mostarda forte e que fez sobressair ainda mais o sabor do recheio repleto de carne destes dois ex-libris dos salgados nacionais.

O croquete chegou-nos ainda quente com aquela crosta vigorosa que guardava o recheio macio e que se desfazia na boca. O pastel de massa tenra, ao contrário do que estou habituada, chegou-me quase sem ar no seu interior, ou seja, é muito bem guarnecido e muito rico, em quantidade, em sabor e tempero.

Arroz em dose dupla

A recomendação foi o arroz do lingueirão e o bife à Marrare mas a noite estava tendenciosamente virada para o arroz!

Eu que me perco por uma cabidela, pedi a de frango do campo. Já ele, optou pelo arroz de lingueirão. Como gostamos ambos de ir saboreando os mesmos pratos para irmos “dissecando” as várias notas que a experiência nos vais proporcionando, pedimos que viesse um de cada vez.

Primeiro o arroz de lingueirão. Eu já de telemóvel em punho para o fotografar, fui incitada a “hashtagueá-lo” de #MelhorArrozdeLingueirãoDoMundo e…. não sei se é o melhor do mundo, mas é inquestionavelmente sedutor, à vista e ao palato. Sabor fresco, com aquela frescura do mar e das verduras que fazem da mais fria noite de inverno, uma amena bolha primaveril bem no coração da cidade.

Quando ainda o saboreávamos, fomos gentilmente informados de que a cabidela demoraria dez minutos a chegar à mesa, gesto que muito apreciámos para sabermos exactamente quanto tempo teríamos para continuar a degustar o arroz de lingueirão com toda a calma e dedicação que ele merecia.

E ei-la, a cabidela!

Acreditem, meus caros. Assim vale a pena.

Nunca sei se a expressão “no ponto” significa o mesmo para todos, mas a cabidela estava efetivamente nesse espaço condicionado entre duas variáveis muito bem estabelecidas: Sabor e Textura. As primeiras colheradas são sempre as mais húmidas, as seguintes são depois engrossadas pelo crescimento do arroz, e todas contribuíram para uma experiência superlativa destes comensais.

O travo do chouriço mais “amargo” deu um punch ao prato que muito me agradou, bem como a mão “carregada” no vinagre que fazem de uma cabidela comme il faut.

A ideia era perceber se a mousse de chocolate é assim tão boa como dizem mas…acabámos por sair do Cacué como fãs da Marta

Íamos lançados para a mousse quando nos recomendaram provar uma novidade da carta: O Bolo da Marta, um bolo de ameixa acompanhado de natas com limão. Ainda assim ofereceram-nos um pouco de mousse para percebermos se quando lá voltarmos devemos pedi-la. E sim, é o que vai acontecer.

Em relação ao bolo da Marta, sabem aqueles bolos que sabem a “forno da casa da tia-avó”? Creio que é a melhor forma de o descrever, isso e a expressão “leve e fofo” que fizeram dos sabores e aromas de ameixa e limão uma combinação improvável mas perfeita para fechar a refeição com chave de ouro.

Curiosamente descobri em “conversa de Instagram” com o Cacué que “a Marta” que faz este bolo, é a mesma da dupla Two Pack Travel, um projeto que organiza eventos pop-up gastronómicos para ligar pessoas através da comida, motivo que me leva a acompanhar esse projeto com muito carinho.

Em resumo, sinto que o Cacué é um espaço com uma filosofia que faltava em Lisboa. E refiro-me a filosofia e não a conceito, porque “conceito” é uma palavra que costuma andar de mão dada com um acrésimo do valor cobrado por um prato.

Preços francos, comida sem twists ou desconstruções (que muitas vezes se traduzem em “areia para os olhos” por mais meia dúzia de euros) e muito amor à comida típica e tradicional fazem deste restaurante um lugar que pode perfeitamente tornar-se uma segunda casa. Um daqueles restaurante aos quais vamos recorrentemente e onde criamos memórias para a posteridade. Sim, embora tenha sido a minha primeira visita, senti que já era “da casa”.

Foi de estômago e coração cheio que saí deste lugar, mesmo que sem provar o tal pastel de língua e a mousse (por inteiro), mas fica desde já a forte convicção de que a Gato voltará a passar por cá.

Nota: 4,5 (4 da Zomato) mas com uma margem impressionante para chegar ao 5.

Cacué: Rua Tomás Ribeiro, 93 B-C, Saldanha, Lisboa 1050-227

Leila Gato

Cacué Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

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