Gato em dia

#UmaDúziadeLivros – Frankenstein de Mary Shelley

Nem só de comida vive a Gato, as palavras também a alimentam.

Por isso foi muito fácil lançar-me no desafio lançado pela Rita da Nova,que acabou de criar um Clube de Leitura. Para fazer parte deste clube, só temos de ler um livro por mês com base numa premissa indicada pela Rita. O mês de janeiro foi dedicado a autoras femininas, o que me facilitou a vida porque já tinha um livro em fila de espera desde outubro: Frankenstein de Mary Shelley.

Uma das minhas grandes paixões é o Cinema. Quando era miúda cheguei a ver 3 filmes no mesmo dia e via o mesmo filme muitas vezes para confirmar teorias e decifrar “mensagens escondidas dos realizadores” que, como vim a descobrir progressivamente, nunca deixam nenhum pormenor ao acaso. A adaptação ao cinema do filme Frankenstein marcou-me profundamente quando era criança. Não por ser extraordinário em termos de realização, mas por encerrar uma história assustadora e que, por explorar vários factores no filme, me entristeceu muito na altura.

Ler o livro nos dias de hoje é fazer uma viagem até um tempo em que a inferioridade da condição feminina assumia a qualificação de facto incrustado na sabedoria convencional. As mulheres não tinham voz e o peso da sua pena repleta de tinta não chegava para convencer os editores a publicar as suas obras. Aliás, a primeira publicação de “Frankenstein” teve como autor “O Autor”, permanecendo a identidade de Mary Shelley no anonimato até uma segunda edição. Nem Mary Shelley, mesmo tendo criado aquele que é hoje visto como a primeira grande obra de ficção científica da Literatura, conseguir derrubar essa injustiça em 1818 mas, atrevo-me a escrever, iniciou um percurso essencial que dificilmente teria sido trilhado sem as provações sofridas e as lutas por ela ganhas.

Mas vamos ao âmago da obra.

“Inventar, deve-se admitir humildemente, não consiste em criar algo do nada, mas sim do caos.“

Frankestein é fruto de uma série de episódios negros na vida da jovem autora que a levaram a criar uma história baseada num conto de terror. Desafiada por Lord Byron – num retiro forçado na Escócia em que ela e um grupo de ilustres poetas e escritores aceitaram a missão – nasceu a história deste Prometeus do século XIX. Curiosamente, no mesmo grupo encontrava-se o autor do livro The Vampyre, que veio a ser a primeira obra literária sobre o Conde Drácula, plantando a semente para a obra intemporal de Bram Stoker.

De volta a Frankenstein, temos a história de um médico que vai estudar para longe da sua família e conhece uma série de cientistas que o motivam a estudar o corpo humano e o desejo de dar vida a um corpo morto. Muitos são os relatos da época sobre experiências deste cariz, não sendo de espantar que a própria autora se tenha deixado levar pelo tema, tal como todos nós, de alguma forma, somos seduzidos pela ideia de podermos trazer de volta à vida aqueles que mais amamos.

No caso de Mary Shelley, Frankenstein é a personificação do abandono da Criatura pelo seu Criador. E aqui podemos fazer duas leituras:

Uma metáfora para o abandono de Deus em relação ao Homem nos seus momentos mais difíceis, e o abandono do Homem ao Homem.

Dr. Frankenstein fica horrorizado quando se apercebe que, em vez de um ser humano perfeito, cria um monstro de dimensões grotescas incapaz de estabelecer contacto com os outros homens ou merecer uma palavra ou gesto de afeto por parte de todos os que cruzam no seu caminho. Curiosamente, o único que quebra estas amarras do preconceito era cego. Ou seremos nós?

Não obstante a precisão e urgência dos temas abordados, não posso afirmar que “Frankenstein” é, do ponto de vista literário, uma obra superlativa. Entre outros aspetos, senti algumas falhas no ritmo embora seja ardilosa a construção da narrativa. Deparamo-nos com uma carta dentro de uma carta narrada (coincidência ou não, Drácula também é uma coleção de cartas) e senti que a jovem Mary Shelley não assume um estilo próprio (embora o recente filme sobre esta figura tente retratar exatamente o oposto).

A meu ver, a autora limita-se a usar os artifícios de estilo da época com descrições muito bucólicas de paisagens e situações. Naturalmente, teria de estudar um pouco mais para ter uma opinião melhor fundamentada sobre a obra e as suas várias dimensões, mas sinto que o que mais marcou nesta leitura foi a reflexão que fica sobre a Condição humana e sobre as consequências dos nossos atos, principalmente quando estes resultam em circunstâncias tenebrosas e vergonhosas.

À nossa maneira, somos todos um pouco de Frankenstein, não acham? Andamos a cortar e a colar o nosso corpo, a tratá-lo mal, a criticá-lo como se ele não fosse uma verdadeira dádiva, esquecendo-nos o que de mais elementar existe: amar e ser amado.

“Tudo deve ter um início, e esse início deve estar ligado a algo que já existiu antes.“

A quem leu o livro, retiram conclusões semelhantes?

Se quiserem aceitar o desafio da Rita, falem com ela por aqui e juntem-se a nós! O nosso primeiro encontro para falarmos das nossas leituras é já no dia 27 de janeiro e mal posso esperar!

Leila Gato

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