Gato em dia

E de repente é Natal outra vez porque comeram uma tangerina

A carruagem do metro avançava furiosamente túnel adentro. Apoiando-se nos acentos e cambaleando ligeiramente,  aproximava-se uma rapariga do meu lugar. Não foi a sua figura que me chamou a atenção e me fez levantar a cabeça, mas o cheiro a tangerina que emanava de uma das suas mãos com que segurava a pequena esfera alaranjada e desmanchada. Já mais perto de mim, ia comendo um gomo de cada vez enquanto falava ao telefone e de repente eu deixei de estar naquela carruagem algures na linha azul do metro de Lisboa.

De repente, estou a descascar tangerinas, sentada no sofá da sala a ver os desenhos animados e iluminada com as luzes indecisas da nossa árvore de Natal. E sinto os meus dedos pequenos e esguios a perfurar a sua casca macia e o cheiro da tangerina a entranhar-se nos poros da pele e no interior do meu nariz.

E sou capaz de jurar que ainda tenho esse cheiro entranhado, como tatuagem que ganha cor e forma nos meus sentidos. E hoje, assim que descaso uma tangerina volto a ser menina dos olhos de alguém a quem nada se nega (principalmente se for doce) e devoramos em conjunto dezenas de tangerinas. E fazemo-lo em dezembro porque é quando estão mais bonitas e o preço fica em conta.

E de repente é Natal vezes se conta e vives todos os natais da tua vida ao mesmo tempo.

E voltas a picar o dedo no alfinete que fazia picotados numa esponja da escola primária. E voltas a receber o cão a pilhas que dava cambalhotas até as pilhas ficarem gastas ou serem precisas para o comando da televisão. E voltas a enfeitar a árvore com fitas vermelhas e pinhas douradas. E voltas a desejar acreditar no Pai Natal para que a magia nunca se perca. E voltas a ficar triste porque há um Natal em que o teu pai teve de ficar no Hospital. E voltas a achar que em dezembro o ar que respiras na rua é diferente do ar de todos os outros meses do ano.

E voltas a sentir que o tronco de Natal com manteiga de cacau da D. Emília é o tronco de Natal mais bonito do mundo. E voltas a embrulhar bibelôs do móvel da sala para treinar aquilo que viste a senhora da loja fazer com o presente de outra criança qualquer. E voltas a abrir envelopes com postais de Natal em que ursos e ouriços escrevem cartas no sofá da sua sala dentro das árvores enquanto a neve cai lá fora e a chávena de chocolate quente fumega ao lado de dois biscoitinhos.

E voltas a estender a toalha de mesa de renda e os guardanapos azuis com estrelas douradas para o jantar. E voltas a ouvir  o som dos sinos no início da “So they know it’s Christmas Time” e achas que é a música mais bonita que alguma vez ouviste. E voltas a ver a tua mãe a chegar a casa com um saco cheio de embrulhos das senhoras do prédio onde ela trabalha com presentes para a “pequenina”. E voltas a sair bem cedo na manhã de dia 24 para ires comprar bolos à Pedroguense depois de lá comeres uma torrada e um galão a escaldar.

E voltas a vestir a tua roupa mais bonita e acabada de estrear e sentes-te uma princesa. E voltas a receber a VHS do A Bela e o Monstro, que o teu irmão já te tinha deixado ver há uns dias, e sentes que mesmo assim, é o melhor presente de sempre. E voltas a sentir que tens outra vez apetite, mesmo tendo acabado de comer meio quilo que pistachios e cajus salgados. E voltas a sentir que gostavas de ter o poder para fazer o tempo parar para que esse dia nunca mais acabasse. E voltas a sentir que gostavas de viver nas casas repletas de neve dos calendários de advento de chocolates. E voltas a sentir que a partir do momento em que abriste a porta da tua casa naquela noite de Natal, abriste também a porta do teu coração e ele passou a bater ao compasso da mais bela melodia da tua vida. Da nossa vida.

E de repente é Natal vezes se conta e vives todos os natais da tua vida ao mesmo tempo porque comeram uma tangerina.

Leila Gato 

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