A Gato come

Taberna Sal Grosso – Santa Apolónia

Uma chuva traiçoeira fez-nos entrar na Taberna Sal Grosso  uns minutos antes da hora marcada. Nesse intervalo de tempo, pediram-nos que aguardássemos 10 minutos na nossa mesa antes do serviço começar. Assim o fizemos. Estes minutos tornaram-se preciosos para apreender todos os recantos do pequeno espaço (é mesmo pequeno) que é esta taberna, localizada resvés à estação de Santa Apolónia.

Com lotação para cerca de 30 pessoas, ficámos numa mesa junto à entrada da cozinha (também pequena) de onde começaram a ecoar os sons de molhos e ser emulsionados, de pão a torrar, de facas a afiar, de manteiga a derreter e de copos de cerveja artesanal a serem enchidos por cozinheiros, que não se coíbem de ir até às mesas para servirem alguns dos pedidos acabados de cozinhar e empratar.

Com uma decoração encantadoramente despretensiosa, somos convidados a pedir, escolhendo alguns dos pratos, petiscos e acompanhamentos indicados na grande ardósia que ocupa uma das paredes (e que é visível onde quer que estejamos sentados).

O que pedimos?

Escabeche de codorniz – Começo já por um dos preferidos da noite! Neste escabeche, sentia-se tudo o que havia para sentir. A codorniz estava perfeitamente envolvida nos aromas do louro, do azeite, da cebola e alho (pareceu-me) naquele manto de deleite servido com pão saloio frito.

Pica pau de atum – A qualidade está no peixe, fresco pois claro. Os pedaços generosos de atum estavam apenas selados o que fez sobressair toda a riqueza da cor e sabor do peixe (que quase parecia carne). Tornou-se também num dos preferidos da noite.

Batatas fritas – Elementar, não é? Mas nem sempre se acerta com as batatas fritas em muita da restauração lisboeta. Estas eram feitas na hora (tivemos de esperar um pouco pela segunda travessa porque, como referi, a cozinha é pequena) e chegaram-nos finamente cortadas e cheias de sal e orégãos. Avé Maria cheia de graça!

Iscas de pato – Nunca tinha provado iscas de pato e normalmente iscas não são algo que aprecie muito (devido a um trauma de infância, um dia conto, se pedirem muito). Ultrapassando o trauma, este fígado só não atingiu um nível superlativo, porque senti um pouco de sal a mais da conta. No entanto, o molho fazia crescer água na boca a cada garfada. Iscas também mais que aprovadas!

Salada de agrião, laranja e cebola – Uma mistura leve e fresca para contrabalançar com os petiscos bem apurados. A pedir!

Barriga de porco fumada – A medalha não vai para esta barriga. Talvez porque estivesse à espera de uma carne mais “gorda” e por isso mais tenra. Porém, a carne é (mais uma vez) de muita qualidade, e só apenas um pouco mais seca do que aquilo que é o meu gosto pessoal. Vem acompanhada de uma salada com amêndoas e um molho adocicado que ligam na perfeição pelo contraste proporcionado.

Alhada de raia – Agora sim, a opção que menos me entusiasmou neste repasto. Longe de manchar a noite ou deixar mágoa, não posso deixar de referir a “pontuação” menos positiva. Talvez tenha faltado um pouco mais de personalidade ao molho no qual senti a falta da força do alho que deveria estar em peso na alhada.

E ainda havia espaço para a sobremesa? Havia, com certeza. Pedimos o que  estava disponível:

Pudim de pão – Há quem seja fã, há que não seja. Eu estou no meio, dividida entre aquilo que o nome sugere e aquilo que realmente é. Quando a primeira garfada foi de encontro ao interior da minha boca, algo de positivo aconteceu. O travo a canela tornou esta sobremesa cativante, seduzindo-me rapidamente quando a comecei a sentir as diferentes texturas e a doçura extra da calda que se ia libertando do pudim.

Mousse de limão – Fresca mas nada surpreendente. Se estava alguma coisa de errada com esta mousse? Não estava, mas também não tenho muito a apontar no sentido de a destacar. Creio que por ser ter elevado tanto a fasquia com o resto da refeição, esta sobremesa revelou-se banal, quer em termos de sabor, quer em termos de apresentação. De qualquer forma, quem adora este tipo de doce, se o provar, não ficará desapontado.

No final ainda nos foi colocada uma garrafa de Macieira para terminarmos a refeição em beleza, cujo gesto muito nos agradou por nos remeter para o imaginário das tabernas típicas portuguesas, nomeadamente as que eu frequentava nos anos 90 com o meu pai.

Se lá querem ir, seja para almoçar ou jantar, recomendo reserva atempada através de email ou das redes sociais, pois o telefone disponibilizado não está ativo.

A Taberna Sal Grosso é um lugar a voltar por três ótimos motivos:

  • a comida que é honesta, despojada de malabarismos de “Chef” para recriar pratos muito típicos da gastronomia portuguesa;
  • o preço que é muito acessível,  o suficiente para permitir uma experiência muito rica (e saborosa) num espaço que convida a entrar e a ficar;
  • o serviço que é despretensioso, animado e atencioso.

Taberna Sal Grosso Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

Leila Gato 

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