Gato em dia

Pão Por Deus

Nasci e cresci no campo. Embora tenha tido contacto com a cidade desde tenra idade, a verdade é que a paisagem, as tradições e a calma do campo sempre foram uma parte de mim.

Esta menina do campo (e do Pinheirinho) tem um carinho especial pelo dia seguinte, o dia de Todos os Santos, que para mim sempre foi simplesmente o dia do Pão por Deus, porque os mortos só apareceram depois no nevoeiro da vida. Ensinaram-me na escola de onde vinha este hábito (na realidade, nasceu de uma antiga tradição de oferecer pão, bolos e vinho aos defuntos) e eu e os meninos juntávamo-nos todos para pedir de porta em porta.

Durante alguns anos fui pedir com o saco do pão na manhã de 1 de novembro. De todos estes primeiros de novembro, há um que recordo com especial carinho.

Novembro acabava de se instalar no calendário já caduco daquele ano e aquele frio natural da época lá fora. Os primeiros tiros de caçadores já tinham ecoado, possivelmente o vizinho Silvestre ia trazer-nos uns coelhos ou lebres para a minha mãe esfolar ao final do dia.

Os meus amigos da escola e eu encontrámo-nos e decidimos a rota do peditório. Poucas foram as portas que não se abriram para nós. O fascínio de bater à porta ou tocar à campainha e gritar em uníssono “Pão por Deus” era enorme, e o sorriso das senhoras e senhores que nos recebiam, também. Normalmente colocavam-nos nos sacos algumas castanhas, nozes, algumas moedas, tuchas (quem se lembra?), ferreros rocher e caramelos de fruta. Por vezes, também surpreendíamos uma ou outra pessoa, que não se tendo devidamente precavido, nos oferecia coisas tão estranhas como iogurtes, ou até uma senhora velhinha que abriu uma lata de bolachas Dan Cake e nos ofereceu umas quantas “para o caminho”.

No entanto, a memória que melhor guardo deste dia é do que aconteceu depois, subi as escadas e a minha mãe abriu-me a porta. Os meus irmãos ainda dormiam e o meu pai estava na feira. A minha mãe ocupava-se da casa e estava a limpar o pó da sala. Assim que entrei fui invadida por um som e por um cheiro. O som era o da televisão que transmitia um concerto do Michael Jackson na RTP e naquele preciso momento estava a dar a música “Will you be there“. Como podem imaginar, isto são coisas que marcam uma criança de 7 ou 8 anos de idade. O cheiro era o de óleo de cedro que a minha mãe usava em quantidades generosas em todos os móveis da casa, principalmente os da sala.

Porque é que este episódio me marcou? Não faço a mais pálida ideia. Mas como todas as memórias que guardo da infância, acredito que é importante preservá-las pois são elas que fazem de mim o que sou hoje. Se sou mais sensível a um cheiro, se me agarro a isso para ter menos saudades de um tempo da minha vida que nunca mais vai voltar, que seja.

Bom feriado a todos.

Leila Gato 

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