A Gato fala com...

Margarida Beja – Em Banho Maria

A Margarida começou a chamar-me à atenção quando dedicou alguns instastories a dar a sua perspetiva sobre temas tão  atuais, para quem se preocupa em manter uma vida saudável, como a dieta paleo ou os alimentos gluten free. O que mais me cativou na altura, além da sua grande capacidade de comunicar, foi a forma aberta e sem “agenda” como desmistificou os temas dando a sua opinião sobre os mesmos, reforçando sempre que a mesma era dada depois de investigar os temas e procurar fundamentá-los com argumentos científicos.

Passados alguns meses, meti-me com ela para a desafiar a responder-me a algumas perguntas para partilhar aqui. O que vão ler a seguir é o resultado dessa conversa digital que eu espero que muito em breve se materialize numa conversa offline onde haja espaço real para uma torrada e um abatanado para mim e um galão para ela! 🙂

Entrevista a Margarida Beja – Em Banho Maria

1. Quando é que descobriste que querias ser nutricionista? A tua própria experiência de vida, ajudou-te a escolher este caminho? Queres partilhar connosco?

Eu nunca fui ligada às ciências, sempre gostei de artes, comunicação e tudo o que fosse relacionado com criatividade. Acabei por ir para ciências no 10º ano, sem saber muito bem o que fazer. Por volta dessa altura tive de recorrer a um nutricionista porque precisei de ajuda para ganhar peso. Foi uma fase mais complicada da minha vida, que me levou a conhecer outro lado da nutrição que não o da perda de peso. Na altura, tinha uma relação pouco pacífica com a comida, uma grande necessidade de controlo e uma ausência total de prazer a comer. Ganhei gosto pela área, nomeadamente pelo facto de poder juntar algo que adoro também, a psicologia.

2. E porquê Londres? Fala-nos um pouco do teu percurso até chegares à ilha de Sua Majestade Isabel II?

Inglaterra surgiu depois de um período de grande frustração em que só me queixava por não ter o trabalho que queria e reconhecido da forma que eu achava que merecia. Eu sei que muitos me podem criticar por isso, mas eu sou contra a ideia de que temos de “comer e calar” só porque somos recém licenciados e não temos experiência profissional. Em Inglaterra comecei como assistente, porque temos de começar por algum lado, mas a minha remuneração sempre foi justa e com possibilidade de aprender. Eu sempre quis trabalhar num hospital e não tive essa oportunidade quando estava a pensar sair de Portugal. Procurei, mas muito sinceramente não me apeteceu esperar. A juntar a alguns acontecimentos na minha vida pessoal, achei que fazia sentido ir trabalhar para fora. Já tinha estudado fora também, quis ter as duas experiências e estava a precisar de viver outras coisas.

3. Foi difícil a adaptação ao clima, às pessoas e… à gastronomia?

No início foi difícil porque eu fui para um sitio onde não conhecia ninguém, no norte, num trabalho como assistente (enquanto esperava a minha cédula para trabalhar como nutricionista) o que me obrigou a dar um passo atrás para depois avançar dois, o processo é necessário mas pode ser frustrante também. Depois a língua, por muito que falasse inglês, era difícil estar a trabalhar e ter de pensar como se dizem certas coisas… os hábitos alimentares e o sistema também são diferentes e isso obrigou-me a esforçar-me ainda mais. O clima não é o melhor, mas isso é uma questão de hábito. Tive muita sorte com as pessoas, tenho encontrado gente incrível que me ajudou desde início e que hoje tenho o privilégio de os ter como amigos.

4. Como é que surge o Em Banho Maria?

Sempre gostei e li blogs, no 2º ano de faculdade tinha começado um, que depois acabei por deixar e quando vim para Inglaterra criei o “Nutriabroad” onde ia escrevendo sobre a minha experiência. Com o tempo, deixei de publicar também. Mais recentemente, uma amiga minha incentivou-me a continuar um projeto meu porque acreditava que eu tinha jeito para comunicar, além disso, tinha saudades de falar em português e há muito que queria finalmente fazer isto. O nome surgiu do nada, queria algo português e simples… O meu primeiro nome é Maria e em banho maria está relacionado com a alimentação mas não é limitativo: posso falar do que eu quiser! Além disso, é um projeto que tem estado “em banho-maria” há muito tempo e que só agora consegui concretizar.

5. Numa altura em que são tantas as páginas que abordam o tema “alimentação saudável”, o que diferencia o Em Banho Maria das demais?

Eu não gosto de me comparar, porque uma das características do em banho maria é o facto de mostrar o que sou e o que me apetece falar, independemente de ser melhor ou não em relação a outras páginas que já existem. Acima de tudo, o meu papel é criar alguma leveza na nutrição, dando informação credível e desconstruída ao público em geral e promovendo uma relação saudável com a comida considerando a vertende emocional, social e psíquica. Para além disso, gosto de me divertir e a ser eu própria: por muito que considere isto de um ponto de vista profissional, acho importante dar um lado pessoal à minha página.

6. Consideras de alguma forma “perigosa” o modo como tão facilmente se acede a informação e dados falsos nas redes sociais sobre alimentação?

Sem dúvida! As redes sociais poderiam ser ótimas ferramentas no toca a literacia em saúde, mas considero que são super mal aproveitadas. Acho que profissionalismo over popularity é um valor que deveria ser sempre considerado, nomeadamente quando nos defendemos com um título profissional. O instagram é uma plataforma gratuita, apelativa e muitos de nós consome imenso tempo a viajar no feed, no entanto, nem sempre é um mar de informação credível já que nem sempre é considerado o background da pessoa mas sim o alcance que a mesma tem e, muitas das vezes, o dinheiro que pode estar envolvido na partilha de algo. Procurar informação nas redes sociais não invalida a consulta de um profissional de saúde.

7. Por um lado, nunca os nutricionistas tiveram tanto “palco”, mas por outro abriu-se espaço para muitas pessoas (as chamadas “influencers”) darem conselhos de nutrição/psicologia a pessoas com fragilidades que encontram nas redes sociais um espelho, muitas vezes erróneo de si próprios. Concordas com esta perspetiva?

Quais as consequências desta situação? Acho que todas essas pessoas têm um lugar importante e plausível, no entanto, acho que se deve olhar para os dois lados da moeda: por um lado, quem partilha deve ter consciência da sua formação e do que está a dizer, nomeadamente quando falamos de nutrição que, embora nao seja sempre vista como tal, é uma questão de saúde.

Por outro lado, quem vê deve ter consciência de que o que existe nas redes sociais nem sempre é o retrato da realidade, nem sempre aquela pessoa promove um produto que consome e aquelas fotos têm um tratamento digital para que fiquem quase na perfeição. Depois, partir do princípio que devemos encontrar uma solução para os nossos problemas de saúde nas redes sociais (e isto inclui saúde mental) não me parece ideal… claro que nos podemos inspirar nos outros, mas nem sempre é suficiente para nos ajudar a nós próprios.

É interessante ver pessoas a falarem da sua experiência de forma a serem uma inspiração e exemplo para outros, mas também é preciso saber sugerir a consulta de um profissional ou apelar a individualidade humana – o que funciona para mim pode não funcionar para ti.

8. A tua abordagem, como nutricionista, tem sempre em conta uma perspetiva – a meu ver – fundamental que é a relação saudável e pacífica com a alimentação. Sentiste que era uma lacuna em termos de informação veiculada nos canais digitais?

Sinto que, embora esteja a mudar, falar de saúde mental ainda pode ser um tabu. Tudo nas redes sociais é cor-de-rosa, nomeadamente quando falamos de nutricionistas: comem sempre comida saudável, vão ao ginásio regularmente, têm uma vida santa porque recebem muito bem e as marcas oferecem produtos – as coisas não são assim. Eu tenho o desejo de voltar a estudar, nomeadamente na área da psicologia, porque sinto que é uma grande lacuna na minha formação. No instagram acabo por ver coisas muito black and white – se comeres isto vais engordar, senão comeres isto vais ficar doente, não consegues ter objetivos porque não tens força de vontade e eu quero desmistificar isso, começando por mim que, mesmo sendo nutricionista, não sou perfeita e quando estou triste também gosto de comer algo que me conforte. Procuro mostrar o meu lado humano e imperfeito e apelar a individualidade também.

9. Qual a “moda” mais assustadora do momento?

Ui! Tanta coisa… comportamentos extremistas e recomendações restritivas nunca dão muito bom resultado, nomeadamente ao nível psicológico. Muita gente não o diz, mas muitos distúrbios do comportamento alimentar começam nas redes sociais. Acho que o que mais me assusta são os rótulos associados aos tipo de alimentos e padrão alimentar, por exemplo, clean eating: primeiro porque nenhuma comida é suja e depois porque clean é algo tão subjetivo e por vezes tão restritivo que vejo tudo, menos um conceito saudável nisso. Acho que a idealização de um corpo que não existe e a generalização dos padrões alimentares que se vêm nas redes sociais são fatores igualmente preocupantes.

Proust, desculpa mas vou roubar-te 5 perguntas:

1. Onde e quando foste mais feliz?

Tenho aprendido que nem sempre os lugares são tudo, um lugar banal com as pessoas certas, e que nos fazem bem, pode trazer uma experiência maravilhosa a meu ver. Fui muito feliz quando estive na Holanda por 6 meses em 2016 – a primeira vez que vivi fora de casa dos meus pais, conheci pessoas incríveis e tive experiências únicas em sítios lindos. No dia em que vi o meu irmão pela primeira vez também fui genuinamente feliz, tinha 7 anos mas lembro-me de tudo, inclusive do cheiro e da roupa que tinha vestida.

2. Qual é o teu bem mais valioso?

Isto e um bocado cliché, mas sem saúde pouco se faz. Além da saúde, valorizo muito o lado subjetivo do meu sorriso. Sou muito espontânea, se não pareço feliz é porque não o estou de todo.

3. Qual é o teu lema de vida?

Tudo acontece por algum motivo e eu aceito o que me acontece na vida como parte de mim e de uma mensagem ou lição que tenho de aprender.

4. Qual é a tua ideia de felicidade plena?

Ter saúde e estar rodeada de pessoas que “me permitem” sentir eu própria, com tudo o que tenho de bom e com os meus “podres” também. Manter a minha conexão espiritual e fé também são valores dos quais não abdico.

5. Qual a pessoa que mais admiras?

É tão difícil fazer essa distinção – a minha avó é (era) alguém que vou sempre admirar. Os meus pais e o meu irmão, por vários motivos, são pessoas por quem tenho especial admiração e amor incondicional.

 

As fotografias são do IG da Margarida e foram todas cedidas pela própria.

Leila Gato

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *