A Gato come

Tambarina – O cabo-verdiano de São Bento

Em plena Rua do Poço dos Negros, há um restaurante de aspeto atascado que serve grandes doses de muamba e cachupa. Dois motivos mais que válidos para uma visita da Gato.

Fomos jantar cedo, pelo que fomos os primeiros a entrar no restaurante, dando-nos tempo e margem para apreciar o espaço e deixar-nos envolver pelo espírito que ali se vive. Quase sem darmos por isso, o Tambarina começou a encher-se de comensais, na sua grande maioria turistas, uns entravam e saiam depois de olhar para o aspecto do restaurante e dos pratos, talvez pela sua simplicidade e aspeto pouco cuidado (não sabem o que perdem), outros entravam confiantes da aventura e comiam de sorriso rasgado. Havia também alguns portugueses que pareciam habitués do espaço e que – bem à mania portuguesa – o encheram palavras faladas a alto e bom som, sempre muito bem humoradas.

Não pedimos entradas, e partimos logo para duas meias doses de cachupa e muamba e ainda uma dose extra de funge e dois papo-secos (o senhor fez questão de nos perguntar quantos pães desejávamos). Enquanto aguardávamos, chegou um músico que tomou conta da animação da noite, algo que acontece quase diariamente naquele lugar e que lhe dá um ambiente ainda mais animado, embalando-nos para um ambiente mais autêntico.

Então e a comida?

Sou renitente em usar a palavra “deliciosa” para escrever sobre comida, mas a verdade é que estava. Provar esta comida e viver esta experiência fez-me recordar a “comida de tacho” da minha mãe guiada pela experiência de anos que lhe dita as quantidades dos temperos, do azeite e do sal dos guisados,  dos refogados, da comida muito apurada, cozinhada durante horas, sem grande ciência mas muito sabor.

A muamba que me remete para um sabor familiar

Vem-nos para a mesa um prato típico de cantina cheio de pernas de frango afogadas num molho espesso e de cheiro apetitoso próprio da cebola, do alho, dos quiabos e do jindungo. O frango estava talvez cozido demais, o que para a Gato é um plus (perdoem-me os entendidos sobre o ponto de cozedura da carne do frango) pois esse sempre foi um defeito tornado qualidade da comida da minha mãe.

Provei pela primeira vez o funge. Para quem não conhece, o funge é uma farinha de mandioca cozida. A aparência não é a mais bonita, mas torna-se muito curiosa, principalmente depois de a provar. De consistência algo elástica, ficamos um pouco confusos sensorialmente porque a ideia que temos é de que vamos comer algo parecido com puré (de batata, por exemplo) mas depois a matéria acolhida pela nossa boca escapa totalmente a esta ideia inicial. O sabor característico da mandioca e a textura ligam na perfeição com o molho da muamba, pelo que não vejo a hora de repetir.

A cachupa especial do Tambarina

Não sabendo ao certo se a receita do Tambarina envolve o ritual que se inicia de véspera com a demolha do milho e dos feijões, a verdade é que este guisado é daqueles gulosos, em que só apetece molhar o papo-seco vezes sem conta até encontrar o fundo do prato.

De resto, os ingredientes parecem todos frescos a começar pelos pedaços de carne, envolvidos com os enchidos que tornam a cachupa num prato curiosamente rico e cheio de vida pelas texturas, aromas e sabores que proporciona ao palato.

Não sei se é a melhor comida cabo-verdiana de Lisboa, mas posso dizer que é uma comida que reconforta e que vale, acima de tudo, pela “viagem” que convida a fazer.

E há picante caseiro? Há sim senhor!

É que nem foi preciso pedir, num abrir e fechar de olhos foi-nos apresentado o “picante da casa”. Um espesso molho vermelho – tão vivo como a camisola do Benfica – capaz de incendiar até a língua dos comensais mais destemidos.

Considerações finais

O atendimento não é muito profissional, mas a verdade é que se trata de apenas uma pessoa que tem de zelar pelo conforto e gestão de duas salas de restaurante repletas de pessoas de diferentes partes do globo. E se por um lado, vimos que os turistas tinham toda a paciência e simpatia do mundo em relação à situação, o mesmo não vimos por parte de alguns portugueses que não tiveram a mesma emmpatia e compreensão.

Algo que também temos de apontar: a pessoa que nos atendeu não sabia como acionar a parceria com a Zomato e foi difícil e demorada a aplicação do desconto Zomato Gold, o que revelou pouca atenção e formação sobre a parceria e na forma como a mesma é gerida na interação com os clientes. Mas temos de dar o desconto, até porque houve muito boa vontade mesmo com a casa cheia e muitas e sucessivas solicitações de outros convivas.

Claramente um restaurante para revisitar, sabendo sempre ao que vamos: comida simples, earthy e cheia de sabor. Entre uma morna cantada e uma cerveja gelada, a felicidade é um lugar construído pela Dona Augusta e os seus cozinhados.

Vou dar uma nota 3 na escala da Zomato porque não me é permitido dar um 3.5. 🙂

Tambarina Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

Leila Gato

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