Gato em dia

Juventude

Surge de manhã e senta-se sempre à minha frente na carruagem do metro. É pequena e esguia e parece leve como um pedaço de algodão doce pedinchado pela não de uma criança.

A brancura dos seus cabelos e o tremer das suas mãos revela um número considerável de anos vividos e marcados no corpo, pesando agora sobre os que que ainda tem pela frente.

Permanece sempre à beira do assento e agradece, quer lhe cedam o lugar ou simplesmente a ajudem a sentar mesmo à minha frente.

Junta aquelas mãos tão bonitas sobre os joelhos e olha para tudo e para todos como se fosse a primeira vez. Olha-nos com uma curiosidade que revejo cada vez menos nos que se movem no dia a dia, para trás e para a frente, para cima e para baixo, sem vontade de se dedicarem a outra coisa que não esteja a deslizar num écran.

Esta é a juventude que acredita que já sabe, que já viu e que ainda tem tempo para fazer tudo o que realmente quer. Nestas manhãs em que a vejo na carruagem do metro, sinto que ela me observa com aqueles olhos encobertos por uma névoa branca e um sorriso inocente nos lábios finos e enrugados. Olha-me como se em busca de algo perdido nos meus cabelos que ainda não são brancos, no meu rosto que ainda não transparece os anos que carrego e na minha alma que teima por encontrar uma forma de nunca abandonar este corpo.

Olha como se em busca de juventude, como se a jovem que ela já foi, encontrasse em mim, o que vou procurar quando eu tiver a sua idade.

Leila Gato

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