Gato em dia

Madalena – Cena 5 de um filme que não completei

No espaço amplo do café muito movimentado vemos várias pessoas a serem servidas. Dois empregados sorridentes andam por entre as mesas a anotar pedidos, enquanto um terceiro recebe comida ao balcão.

Ouve-se Chet Baker como música de fundo.

Destaque para o fumo que sai de uma chávena de café.

MADALENA está sentada e quase imóvel a uma mesa a olhar pela janela. Parece olhar sem ver a chuva que cai torrencialmente lá fora. Calmamente e sem tirar os olhos do vidro, puxa de um cigarro que está pousado junto a uma chávena de café e a um prato repleto de migalhas e pedaços de papel. Acende o cigarro. Vemos o seu rosto em grande plano.

Dá os primeiros bafos de encontro aos vidros que os embaciam ligeiramente.

Alguns segundos depois…

EMPREGADO

(incomodado e receoso)

Desculpe… Mas a senhora não pode fumar aqui dentro.

MADALENA

(calma e com olhar desafiador)

Diz quem?

EMPREGADO

(confuso)

Eu. Quer dizer, são as regras, não se pode fumar dentro de espaços públicos. É da lei.

MADALENA

(Esboça um ligeiro sorriso de troça

e volta a olhar para o espelho)

“É da lei”, diz ele.

(Madalena vira devagar o rosto para o empregado)

Já viu como chove hoje? Devia ser proibido chover assim na cidade de Lisboa.

Eu chamo a isto uma tragédia pluvial.

EMPREGADO

(impaciente)

Pois, eu compreendo que não queira sair para fumar, mas está a incomodar. A incomodar os outros clientes…

Madalena franze os olhos e olha-o de forma desafiante ao mesmo tempo que se levanta – sendo bem mais alta que ele – e olha em volta como se procurasse alguém.

MADALENA

Estou?

Acho que a única pessoa que está incomodada com o meu cigarro é você. Deixou, foi? Quer experimentar do meu?

(Levantando a mão com o cigarro na direção dele como se estivesse a oferecer um doce a uma criança) 

EMPREGADO

Desculpe, mas vai ter mesmo de apagar o cigarro.

Madalena olha-o como se tivesse pena dele por ter recusado o seu cigarro. Suspira. Sempre muito devagar, vira o rosto para o espelho e dá um último bafo. Com o dedo indicador da mão esquerda desenha um círculo no vidro e com a mão direita apaga o cigarro no vidro, bem no centro do círculo.

MADALENA

Pronto, ganhou.

Aqui não fuma ninguém.

Agora traga-me um copo de vinho, o mais caro da carta que não vou ser eu a pagar.

Cena escrita durante uma sessão do Curso de Escrita Criativa da Nextart – Exercício: Escrita para Cinema

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