Gato em dia

Verão, aquela felicidade escondida nos detalhes da memória

Desde que li O Jardim do Éden de Ernest Hemingway que tenho uma visão completamente diferente do verão. Para mim, verão é sinónimo de sestas na praia, de caminhadas a beira-mar, do cheiro a carvão, a peixe assado e do som de ventoinhas nos cafés e snack-bares à beira da estrada.

Neste livro, o verão divide-se entre sestas em quartos de hotel de luxo junto à praia, acordar tarde, tomar o pequeno-almoço demoradamente na varanda, fazer amor, beber vinho branco fresco e noites  de festa.

Esta é a estação do ano que desperta em nós as mais variadas memórias, vindas dos nossos 5 sentidos. Como personagens que habitam nas páginas de um livro, somos também nós remetidos para as histórias que fazem da nossa vida única, com todos os detalhes e preciosismos que ficam nas entrelinhas da nossa cabeça (e nos nossos corações).

Os verões não são todos iguais

Por mais hábitos e prazeres que herdemos dos hábitos e prazeres do nossos pais, amigos e familiares mais próximos, há sempre algo particular que faz do verão de 1990 diferente do de 2001 ou do verão do ano passado. Podemos ir aos mesmos lugares e até estar com as mesmas pessoas, mas o que é igual será sempre diferente… diferente como nós a cada hora que passa.

O meu verão cheira

a areia do mar, a salsa, a estofos de autocarros (da Mafrense quando íamos do Pinheiro para a Ericeira), a bolas de berlim (que ele come), a cão fatigado depois de passar dias fora de casa, a roupa acabada de lavar com OMO, a fritos nas festas das aldeias e a relva acabada de cortar.

o meu verão sabe

a gelado de baunilha, a frango assado, a pacotes de leite com chocolate escolar, a cerejas, a coca-cola com gelo e limão, a salada de pimentos (só que eu não como os pimentos), a caracóis e pão torrado com manteiga, a picante e colorau e a pastéis de bacalhau com garrafa de leite com chocolate Ucal fresco.

o meu verão é um bafejar de memórias

é areia colada ao corpo, são cabelos embaraçados, são pés descalços por casa, na relva e na areia, é súor e mais súor, são as praias fluviais que descobrimos pelo país, são as sestas na rede debaixo de uma árvore, é perseguir as carreiras de formigas para ver até onde é que elas conseguem ir, é o toque da pele contra a pele, é o abraço que dei à minha irmã em pleno aeroporto da primeira vez que ela voltou a Portugal de Inglaterra, é comer um magnum de amêndoas com a minha mãe na torre 21 à sombra, é chegar à Figueirinha por volta das 4 da tarde porque primeiro o meu pai tinha de ver o ciclismo, é ouvir Careless Whisper numa varanda enquanto bebia uma coisa com um sabor estranho chamada Pepsi Cola, é usar um vestido curto aos quadrados rosa e brancos e jogar à macaca no jardim, é dormir a sesta na praia no peito dele, é lavar a roupa das bonecas no tanque, é ir com o meu irmão ao Cantinho escolher gelados da Menorquina, é dizer “sim” depois de ler o nosso “My Adventure Book”, é escutar o toque da última aula antes das férias.

E o vosso verão, a que cheira e a que sabe?

Leila Gato

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