Gato em dia

Balada sobre a sonsa da panqueca que eu não quero comer

Chegou a hora de dedicar um pequeno texto a um odiozinho de estimação que nutro por estas candidatas a Miss Fotogenia do Ano: as sonsas das Panquecas.

Tenho dedicado longos momentos de introspeção a pensar sobre este tema. Como é que uma coisa tão enfandonha pode gerar imagens tão “instagramáveis”. Como é que uma coisa mole, com uma textura ridiculamente pobre e um valor nutricional para lá de sofrível, consegue atingir este nível de cabimento? Fui averiguar, a hashtag #pancake (procuro em inglês porque já diziam os Clã, a língua inlgesa fica sempre bem) tem 8 100 183 entradas e bread tem 9 032 851.

Claro que bread tem mais. Mal seria. Mas as panquecas estão à toca, as sonsas, e isto magoa-me por dentro. É que ainda por cima são feitas e comidas por pessoas que são fit cenas, o que é um contrasenso porque são fit e cortam nos hidratos (há pesssoas que são infelizes por escolha própria).

Estão a acompanhar o meu raciocício? Depois comem panquecas cozinhadas com pós feitos por uma indústria alicerçada em códigos promocionais e frases-chave como “gasta 40 euros em coisas que não precisas e damos-te um vaso de manteiga de amendoim” (eu sei que não é um vaso). Pior, há profissionais de nutrição que fazem apanágio do flagelo e têm os seus próprios códigos.

Fora o fit isto e o fit aquilo, concentremo-nos naquele que é o meu ponto fundamental e grande preocupação.

E onde é que fica o pão no meio deste caos?

O pão, aquele que é feito no forno a lenha, com aquela côdea bem cozida e crocante e aquele miolo (fofo e esburacado) que nos enche a alma de sabores de outrora feito com massa mãe? E aquela sensação de dar uma dentada ensalivada numa fatia de pão afogada em manteiga derretida ou banha de porco (como a que comi aqui)? Há algo que ultrapasse isto? Vão-me dizer que é o abacate triturado com cacau? Vão-me dizer que é o doce de morango com stevia? E a carcaça? O que é que se faz à carcaça?

Uns são mais bolos, eu sou mais pão. Hoje vejo muitas pessoas a porem-no de lado, a criarem fobias e uma má relação com alimentos de que gostam mas que acreditam que não lhe faz bem. Sou devota do equilíbrio. Se formos equilibrados podemos comer tudo e de tudo sem que isso nos faça mal (a não ser que sejamos celíacos ou alérgicos, vá).

Ao retirarmos por completo determinados alimentos da nossa alimentação, parece-me normal que quando o comermos o nosso organismo reaja de forma estranha e nos magoe de alguma forma. Não sou nutricionista, apenas uma curiosa por estes temas e felizmente sou seguida por uma que é incrível e que creio que concorda comigo.

Era só isto. Estão a ver aquela sensação de levar à boca uma fatia de broa de milho acabada de cortar com uma noz de manteiga? É o que vou sentir logo depois de publicar este pequeno desabafo.

Leila Gato

 

2 thoughts on “Balada sobre a sonsa da panqueca que eu não quero comer”

  1. Que maravilha de texto! Finalmente alguém que partilha a minha visão de que o pão é uma das maravilhas deste mundo! As panquecas estão, claramente, sobrevalorizadas!…

    G

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