A Gato come

A Gato na rota do Papas na Língua: Prado

Há um terreno fértil a florescer numa antiga fábrica de enlatados em Lisboa.

Chama-se Prado e parece saído de um mundo encantadoramente natural, tão natural como o ato de comer.

Tudo o que provamos é feito com ingredientes nacionais e da época e servidos sem teatralidade. Se nos sentarmos à mesa e abrirmos o menu duas vezes no mesmo mês podemos ser surpreendidos, pois este está em contante mudança – respeitando o que a Terra dá e o que a Terra tira.

A comida é cozinhada com bases fermentadas feitas com legumes, usadas como gordura para cozinhar ou como estrutura para um molho, evitando o desperdício alimentar.

O ágape foi servido pelo próprio António Galapito, o Chef por detrás do Prado, que fez questão de nos apresentar todos os pratos, enquanto ia respondendo às nossas perguntas, mesmo com casa cheia.

Comecemos pelo início: O pão, a manteiga e a banha

Amigos, há uma gordura de porco preto batida com alho e louro que além de um lugar especial nas minhas coxas, tem agora também um lugar ainda mais cativo no meu coração.

Suspeito que gosto de banha porque me remete para a infância, houve uma altura em que a minha mãe usava bastante para cozinhar carne e como se comia muita carne lá em casa, o sabor característico desta gordura era uma constante. Talvez a banha seja a minha “madalena de Proust”.

Para além desta banha, provámos ainda manteiga fresca de cabra com sal fumado e alface do mar. O pão que serviu de veículo para este início de banquete, era pão de trigo Barbela, uma parceria Prado-Gleba. Que dupla vencedora! 

Breve passagem pelo mar: O berbigão, as acelgas, os coentros e o pão frito

O berbigão levemente cozido e submerso no caldo das acelgas e coentros e que depois foi brindado com pequenos pedaços de pão frito, tratou-se apenas de uma das primeiras experiências que começaram a soar todos os alarmes interiores de que o que estava para vir só podia estar à altura da fase anterior ou ser ainda melhor.

Rufem os tambores que vão entrar a tosta de toucinho fumado, as acelgas e a salsa

Uma descrição inocente escondia um duo superlativo de sabor e textura. Imaginem o pão torrado e cortado no tamanho certo. Agora sintam-no coberto por fatias finas de toucinho, macio como seda e que se parece fundir com a nossa língua e as acelgas e a salsa dão-lhe a frescura.  Depois é trincar, fechar os olhos e tentar não deixar rolar uma lágrima bochecha abaixo.

Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira porque há: Tártaro de Minhota e couve galega grelhada

A frescura da carne picada com cogumelos shitake fez-me desejar que o tempo parasse no exacto momento em que levei o tártaro fechado com couve galega grelhada à boca. Só queria que ele ficasse para sempre encurralado na minha boca até ao final dos dias. Perfeito (e talvez o meu preferido da noite, depois da banha).

Vegetarianos, acusem-se! Está a sair uma Couve coração, com massa pimentão e trigo sarraceno

Não precisamos de ser vegetarianos para nos deixarmos apaixonar por um prato que grita “Amor à couve” por todos os lados. A massa pimentão é caseira do Prado e envolve a couve tão pouco cozida que ainda lhes sentia o sabor das raízes terrosas. O trigo sarraceno dá-lhe o crocante que torna o prato numa saborosa surpresa.

Sai de cena quem não é de cena que temos o lúcio perca, as azedas e o alho tostado

Terminámos o banquete com peixe que se desfaz em lascas e que repousa num caldo que me relembrou que a simplicidade é tanto um ponto de partida como de chegada, o que faz toda a diferença quando o que se quer é sentir todos os sabores do que se come.

A insustentável surpresa de uma sobremesa: o gelado de broa de milho com batata doce

Sim, estão a ler bem. O gelado é de broa de milho e leva pedaços de batata doce. E sim, é uma combinação que vai além do provável e que é exuberante pela aparente confusão de sabores que pode causar no nosso palato, tão habituado a ver determinados alimentos confinados ao seu papel de entretém ou mero acompanhamento.

No Prado não há entradas e pratos principais. A ideia é pedir este e aquele e ir provando, partilhando, sem ordem, sem regras. A naturalidade impõe-se às regras instituidas à mesa e o resto é deleite.

Por algumas horas, a Gato regressou às suas origens campestres e deve dizer que há muito tempo que não se sentia tão em casa como aqui. Até ao dia em que voltar ao Prado, vou lembrar-me deste lugar como um Poema que professa o Amor à Terra, aos que a cultivam, aos que a respeitam e aos que colhem os seus frutos no dia e na hora certa.

Leila Gato 

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